Mensagens de Vorcaro a Moraes antes da prisão são divulgadas após Mendonça quebrar sigilo no caso Banco Master
Mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), indicam que o empresário pediu informações sobre o andamento das investigações envolvendo o Banco Master e solicitou que o magistrado tentasse atuar para conter o avanço do caso, segundo relatório da Polícia Federal (PF).
O conteúdo foi extraído do celular de Vorcaro e teve o sigilo retirado nesta terça-feira (1º) pelo ministro André Mendonça, relator do Caso Master no STF. As conversas foram trocadas antes da prisão preventiva do ex-banqueiro, em novembro de 2025.
Em uma mensagem enviada a Moraes às 23h48 de 17 de novembro, minutos antes de ser preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, Vorcaro escreveu: “To indo assinar com os investidores de fora e estou online”.
O ex-banqueiro tentava embarcar em uma viagem com destino a Dubai quando foi preso preventivamente. Na manhã seguinte, em 18 de novembro, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero, enquanto o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.
No relatório, a Polícia Federal afirma que Vorcaro conversava com Moraes por meio de mensagens temporárias. Segundo a investigação, eram enviados ao ministro prints de mensagens escritas no aplicativo “Notas” do celular do ex-banqueiro.
Perguntas sobre uma possível saída do país
Dois dias antes da prisão, em 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou a Moraes se precisaria deixar o Brasil.
“Acha que segunda já tenho que estar fora?”, escreveu.
Na mesma mensagem, o ex-banqueiro fez outras perguntas: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o (Gabriel) Galípolo (presidente do Banco Central) tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”.
No dia seguinte, um dia antes de a PF cumprir o mandado de prisão, Vorcaro voltou a questionar o ministro: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.
A investigação da PF apontou que o conteúdo das conversas permite deduzir que Moraes municiava Vorcaro com informações sobre o andamento da Operação Compliance Zero, incluindo datas e horários de diligências planejadas pela Polícia Federal.
Pedido para tentar conter a investigação
Em outra conversa, também de 15 de novembro de 2025, Vorcaro pediu que Moraes tentasse atuar junto ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para impedir o avanço das investigações.
“Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?”, escreveu o ex-banqueiro.
Na sequência, Vorcaro afirmou estar preocupado com os efeitos da investigação sobre o Banco Master: “Muita sacanagem isso. esses caras devem estar sabendo que estou resolvendo tudo essa semana e querem acabar com tudo antes”.
Ele continuou: “Muita sacanagem isso. Estou perplexo e indignado. Esses caras vão destruir todo o negócio e sem volta. De repente até melhor eu encarar de frente. Temos que dar um jeito de desarmar isso meu Deus”.
Segundo o relatório, essa não teria sido a primeira vez que Vorcaro pediu ajuda a Moraes para tentar influenciar o andamento das apurações. Em 30 de outubro de 2025, ele teria enviado ao ministro a seguinte mensagem:
“É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”.
Na mesma ocasião, escreveu: “Estou disponível pra tratar e explicar qq [qualquer] coisa, so nao pode ter sacanagem”.
Mensagens de gratidão
Em 14 de novembro de 2025, às vésperas da prisão, Vorcaro afirmou a Moraes que tinha “a gratidão da minha vida” pelo ministro.
“Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você”, escreveu.
Na sequência, completou: “Toda minha família, funcionários, parceiros amigos que dependem de nos tem uma divida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser”.
Contrato de R$ 131 milhões
O relatório da PF também reúne informações sobre um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
Segundo a investigação, Vorcaro tratava o contrato como o “mais importante” da instituição e cobrava que os pagamentos fossem realizados sem atraso.
Em uma conversa com o sócio Angelo Silva, o ex-banqueiro escreveu: “Não pagaram Barci de Moraes. Não to entendendo isso”.
Em seguida, afirmou: “É o contrato mais importante que temos. Te pedi para não falhar. Surreal. Vamos ter problemas”.
O relatório registra que, em 8 de fevereiro de 2024, Vorcaro pediu ao cunhado, Fabiano Zettel, que encaminhasse o “contrato barci moraes assinado” e perguntou quando seria realizado o primeiro pagamento.
No mesmo dia, Angelo Silva teria enviado a Vorcaro um comprovante de transferência de R$ 3.422.268,14 do Banco Master para o escritório, em uma conta no Itaú.
Cerca de um mês depois, em 15 de março de 2024, Fabio Faria enviou uma mensagem a Vorcaro dizendo que “o careca não pode atrasar”. Poucos minutos depois, o ex-banqueiro procurou Angelo Silva para tratar do pagamento.
Em conversa com uma funcionária identificada como “Romy Banco Master”, Vorcaro reforçou que o pagamento não poderia sofrer atraso.
“É o pgto mais importante que temos”, afirmou.
Romy teria enviado o registro de outra transferência de R$ 3.422.268,14 do Banco Master para o escritório. Na sequência, Angelo Silva disse que faria o pagamento antecipadamente e que “depois pegamos a NF”.
O relatório também registra outra referência ao mesmo valor em uma conversa ocorrida em julho de 2025. Em 1º de outubro de 2025, Alberto Felix informou a Vorcaro que o pagamento ao escritório Barci de Moraes havia sido realizado.
Depois disso, conforme a PF, Vorcaro orientou que os valores destinados ao escritório não fossem pagos por Pix.
“Não é bom”, afirmou.
O contrato, segundo a investigação, totalizava R$ 131 milhões. Conforme as informações reunidas no relatório, Moraes teria editado o documento antes da assinatura.
Pagamento com cotas de aeronaves
A PF afirma ainda que Vorcaro negociou a transferência de cotas de um jatinho e de um helicóptero como parte do pagamento pelos serviços jurídicos prestados pelo escritório de Viviane Barci de Moraes.
Um segundo contrato mencionado na investigação previa o pagamento de R$ 50 milhões pelos serviços advocatícios. Desse total, R$ 40 milhões seriam pagos por meio das cotas das duas aeronaves, enquanto os R$ 10 milhões restantes seriam destinados ao reembolso de despesas relacionadas aos voos.
De acordo com dados recuperados de dispositivos apreendidos, em registros de julho de 2025 Vorcaro cobrava providências sobre pendências relacionadas aos ativos e discutia a liberação das aeronaves com interlocutores ligados à empresa Prime You, especializada no compartilhamento de bens de luxo e associada a Marcus Vinicius da Mata.
Em uma conversa, Vorcaro perguntou a Marcos da Mata se as aeronaves já estavam sendo utilizadas pelo escritório. Da Mata, então, teria enviado ao ex-banqueiro um trecho de conversa com Viviane de Moraes:
Marcos da Mata: “estão gostando da utilização das cotas de vocês?”
Viviane: “Sim, estamos gostando muito.”
A investigação também cita uma viagem marcada por uma funcionária da Prime para Viviane. Em outra mensagem, Vorcaro teria orientado:
“Não deixa de atender Barci”.
Quebra do sigilo
As mensagens entre Vorcaro e Moraes foram divulgadas após André Mendonça retirar o sigilo da ação que trata do conteúdo das conversas. A decisão ocorreu depois da publicação de informações sobre os pedidos feitos pelo ex-banqueiro para que o ministro atuasse junto a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet contra o avanço das investigações sobre o Banco Master.
Diante das novas informações, Mendonça pediu esclarecimentos complementares à Procuradoria-Geral da República. Segundo as informações apresentadas, o ministro também estaria avaliando a possibilidade de levar ao presidente do STF, Edson Fachin, um pedido formal de abertura de investigação contra Moraes e mapeando os votos que poderia obter para uma eventual apuração.
O Banco Central ainda não havia se manifestado sobre o trecho em que Vorcaro cita Gabriel Galípolo.
O escritório de Viviane Barci de Moraes confirmou a existência do contrato com o Banco Master. Em nota, afirmou que o setor de compliance da banca, “como faz em outros casos semelhantes, solicitou informações” a Alexandre de Moraes, “na condição de marido da sócia diretora do referido escritório, sobre a eventual existência de impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual, tais como ações no STF sobre sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do possível cliente”.
da Redação

