Primeira cirurgia de redesignação sexual para mulher trans na PB marca avanço histórico na saúde
A Paraíba se prepara para um momento inédito na área da saúde: a realização da primeira cirurgia de redesignação sexual em uma mulher trans no estado. O procedimento, previsto para ocorrer esta semana em um hospital da rede privada em João Pessoa, será conduzido integralmente por profissionais paraibanos e representa um marco tanto para a medicina local quanto para a garantia de direitos da população trans.
A paciente, uma jovem paraibana maior de idade, teve o procedimento autorizado após acionar judicialmente seu plano de saúde, que foi obrigado a custear a cirurgia — estimada em cerca de R$ 100 mil. A decisão segue entendimento do Superior Tribunal de Justiça, que reconhece as cirurgias de transgenitalização e procedimentos associados como parte do processo transexualizador previsto pelo Sistema Único de Saúde.
A equipe responsável será liderada pelo cirurgião plástico João Pedro Lacerda, que detalhou o processo cirúrgico. A técnica consiste na retirada dos testículos e remodelagem dos tecidos para criação da neovagina, com uso de estruturas do próprio corpo da paciente para formar clitóris, pequenos e grandes lábios. A cirurgia deve durar entre quatro e seis horas e contará com dois cirurgiões plásticos, um cirurgião geral, um anestesista e duas instrumentadoras.
Segundo o médico, a inexistência de uma equipe capacitada foi o principal motivo para que a cirurgia nunca tivesse sido realizada no estado até agora. Ele afirma que muitos profissionais evitam atuar com a população trans, motivados por preconceito ou resistência institucional. Lacerda relata que já presenciou casos de recusa por razões religiosas ou estigmas sobre pacientes trans — uma realidade que, para ele, reforça a urgência de qualificar equipes e criar serviços especializados.
O médico explica que a cirurgia de redesignação não é uma obrigação para pessoas trans, mas uma possibilidade terapêutica para quem sofre com disforia relacionada à genitália. Ele ressalta que cada paciente tem necessidades distintas e que a afirmação de gênero não depende de intervenções cirúrgicas, mas da própria identidade.
A expectativa é que o procedimento pioneiro abra caminho para a criação de um serviço estruturado no SUS para atender a população trans paraibana. A Secretaria de Estado das Mulheres e da Diversidade Humana considera a cirurgia um avanço significativo e informou que estuda, em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde, a implantação futura do procedimento na rede pública, fortalecendo o processo transexualizador no estado.
Levantamento dos Centros de Referência LGBTQIAPN+ da Paraíba indica que mais de 1.380 mulheres trans e travestis estão cadastradas no estado. Para esse público, a realização da cirurgia — e a constituição de equipes comprometidas com o acolhimento e o respeito — representa não apenas um avanço médico, mas um passo simbólico para a garantia de dignidade e reconhecimento.
Para João Pedro Lacerda, o impacto é claro: “A cirurgia traz uma sensação de realização pessoal. Muitas vezes, somos a ponte entre o sonho e a realidade. A população trans só quer o mínimo: respeito, acolhimento e ser tratada pelo nome e gênero corretos”, afirmou.
Com a estreia do procedimento na Paraíba, o estado pode se tornar um novo polo regional para cirurgias de afirmação de gênero, hoje concentradas no Nordeste apenas em Recife. A meta, segundo o cirurgião, é ampliar a equipe, qualificar novos profissionais e oferecer mais condições para que outras pessoas trans tenham acesso ao cuidado especializado que lhes é garantido por lei.
da Redação